domingo, 28 de fevereiro de 2010

Gótico Walpoliano

A década de 1790 representou o auge da literatura gótica, é nesse período que suas principais obras são escritas consagrando autores como Ann Radcliffe e Matthew Lewis, por exemplo. Entretanto, se o termo 'gótico' já era conhecido na Inglaterra desde a época Shakespeare, até esse momento ainda não havia ainda consolidado um significado confortável para a palavra.
Dizer "gótico" podia ter diversas conotações, dependendo de lado a discussão se estava. Naquele contexto a palavra podia conotar: antiquarianismo inglês, diletantismo do partido Whig, influências do sturm und drang alemão, Jacobinismo, ocultismo e medo de sociedades secretas, nacionalismo inglês conservador, anti-catolicismo, medo da Inquisição, nostalgia do mundo feudal, medo da Revolução Francesa e uma série de outros significados antagônicos entre si. Apesar de ser um movimento multi-facetado, reflexo de conjunturas históricas e políticas, pode-se notar que a literatura gótica é, em grande parte, uma literatura ligada ao terror e ao medo.
Talvez, uma melhor maneira de se compreender o gótico na literatura seja entendê-lo como um momento narrativo no qual a nossa razão é desafiada por um acontecimento insólito. Como discurso literário, o efeito "gótico" consiste na criação de uma atmosfera narrativa, que deve envolver o leitor na história, para em seguida assustá-lo, mas de modo que lhe provoque prazer. Entendida assim, como efeito narrativo, a literatura gótica é um dos mais influentes modelos narrativos para as histórias de horror e terror que temos atualmente.
The Castle of Otranto, subtítulo a gothick story (1764), escrito por Sir Horace Walpole (24 de Setembro de 1717 – 2 de Março de 1797, aristocrata e romancista inglês), é a obra seminal que marca o uso do termo gótico em literatura pela primeira vez. O pequeno romance, O Castelo de Otranto é um autodeclarado híbrido entre o antigo e o moderno, entre o romanesco e o romance, colocando em cena um elmo monstruoso, espadas gigantes, uma mão invisível, calabouços labirínticos, quadros fantasmagóricos e toda a parafernália sobrenatural que faria o sucesso dos romances góticos subseqüentes. A veia teatral e cômica desta narrativa são aspectos declarados pelo próprio autor no prefácio à segunda edição (1765), mas que a crítica especializada não costuma destacar.
Na história, o único filho do príncipe usurpador Manfred, o enfermiço príncipe Conrad, morre no dia do seu casamento. O acontecimento é insólito: um elmo gigantesco cai misteriosamente do céu esmagando o jovem príncipe. Sem herdeiros e com uma antiga maldição do castelo pairando sobre a sua dinastia, o pai Manfred passa então a assediar sexualmente a noiva do filho morto. Obcecado pela ideia de desposar Isabella, contra a vontade da donzela, Manfred passa a rejeitar veementemente a filha “inútil” e a esposa “estéril”, tentando de todas as formas evitar a terrível profecia.
Walpole, conde de Orford, filho caçula do primeiro ministro britânico Robert Walpole, formou-se no King´s College de Cambridge, onde estudou matemática, música e anatomia, ingressando em 1741 no Parlamento inglês, onde permaneceu como deputado após o falecimento de seu pai, Horace foi um erudito, um diletante e um entusiasta da idade medieval e, a leitura do romance deixará patente que ele não pretendia ser levado a sério com este livro. Leal ao rei Rei George II e à rainha Carolina, Walpole toma o partido deles, contra o filho Frederick, príncipe de Galles, a quem ele se refere com amargura em suas memórias. A residência de Walpole, Strawberry Hill, perto de Twickenham, é um conjunto fantasioso de estilo neogótico, que cria uma nova tendência arquitetônica.
Em 1757, Walpole passa a imprimir suas obras em Strawberry Hill. As publicações são inúmeras, mas são as suas memórias, registradas nas correspondências com seus amigos, que acabaram por tornar-se para os historiadores, uma fonte detalhada de informações sobre o cenário político e social daquele período. Em uma destas cartas, escrita em 28 de Janeiro de 1754, Walpole cria o termo serendipty, fazendo referência à história persa Os Três Príncipes de Serendip e à capacidade dos protagonistas de realizar descobertas acidentalmente.
The Castle of Otranto (1764) foi considerado demasiadamente inverossímil por seus sucessores e por essa razão autores posteriores preferiram reformar aquela narrativa estranha e pouco sofisticada. Nas próximas postagens falarei detalhadamente sobre esses sucessores.

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